O ‘trabalho invisível’ também afeta as atletas

Aos poucos, há cada vez mais mulheres quebrando barreiras e gestores dispostos a agir

A holandesa Fanny Blankers-Koen foi uma estrela dos Jogos Olímpicos de Londres de 1948. Conquistou quatro ouros no atletismo, nos 100m e 200m rasos, revezamento 4x100m e 80m com barreiras. O apelido dela? “A dona de casa voadora.” É que Fanny ganhou tudo isso aos 30 anos, mãe de dois filhos e grávida do terceiro. Se hoje em dia impressionaria, imagina na época.

A holandesa Fanny Blankers-Koen em prova no estádio de Wembley, em julho de 1948, durante a Olimpíada de Londres – AFP

Esta semana, vi como chamou a atenção o tema da redação do Enem: “Desafios para o enfrentamento da invisibilidade do trabalho de cuidado realizado pela mulher no Brasil”. É o papel invisível das que cuidam da casa, filhos, maridos, pais –como eu e minhas amigas chamamos, tipo equilibristas de circo “rodando vários pratinhos”– enquanto trabalham e tentam ter uma carreira.

Página da Folha da Manhã de 21.nov.1948
Página da Folha da Manhã de 21.nov.1948 – Folha da Manhã

No esporte não é diferente. Atletas com filhos têm direitos questionados, salários reduzidos, perdem contratos e patrocínios ao tentar conciliar vida profissional e pessoal. E a falta de apoio moral ou financeiro, leis e boas práticas tornam esse “trabalho invisível” mais complicado.

A lenda do tênis Billie Jean King, cujo auge foi nas décadas de 1960 e 1970, sempre lutou pela igualdade de gêneros. Alertava como atletas, durante o período menstrual, ficavam angustiadas com o rígido código de vestimenta de usar branco no torneio de Wimbledon. A regra foi revista e, desde a última edição, mulheres podem usar shorts escuros por baixo do uniforme.

Arantxa Sanchez Vicario (esq.), Billie Jean King e Conchita Martinez durante as finais da Taça Billie Jean King 2023, em Sevilha, Espanha – Cristina Quicler – 9.nov.23/AFP

Na maratona, a ex-recordista mundial Paula Radcliffe precisou ignorar comentários ignorantes que ouviu quando engravidou e continuou a treinar. Em 2007, a britânica venceu a maratona de Nova York dez meses depois de ter a filha Isla.

A inglesa Paula Radcliffe vence a Maratona de Chicago de 2002, em outubro, e bate seu próprio recorde mundial, de 2h18’56”, estabelecido no mesmo ano, em Londres – AFP

A velocista Allyson Felix foi uma das pioneiras em direitos trabalhistas ligados à maternidade. Depois de ter conquistado nove medalhas olímpicas, engravidou em meio à renovação de contrato com a Nike, que quis reduzir o salário dela em 70%. A americana denunciou a cultura do silêncio: “Ficou grávida? Esconda”. Com a repercussão do caso, a empresa melhorou as práticas. Depois do nascimento da filha, Felix ganhou ouro e bronze em Tóquio 2021, ultrapassou Carl Lewis e é a atleta olímpica mais vitoriosa da história do atletismo de seu país. Felix alerta que conseguir pagar creches é um grande empecilho para que mulheres continuem a competir em alto nível e lançou um projeto que oferece cuidados gratuitos para filhos de atletas durante campeonatos.

Allyson Felix compete na prova de revezamento 4 x 400m no Mundial de Atletismo em Oregon, em julho de 2022 – Carmen Mandato/Getty Images/AFP

Apesar dos quatro títulos mundiais, a seleção americana feminina de futebol ganhava menos do que a masculina. Depois de anos de disputas judiciais e uma ação por discriminação de gênero contra a US Soccer, passaram a ter remunerações iguais em 2022. Outras nações adotaram a prática.

A cada dia, claro, há desafios. Em maio, organizadores de uma corrida de rua para mulheres em Madri deram um processador de alimentos para a vencedora. Depois, pediram desculpas e disseram que a intenção não foi ser sexista, mas sim “incentivar hábitos saudáveis“. No mínimo, foi fora de tom.

Mais de 75 anos depois que a holandesa voadora foi criticada por ter deixado os filhos em casa para trabalhar, muitas dão exemplos de coragem, para que elas e outras mulheres possam vencer.

Fonte: folha.uol.com.br

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