Fãs de Blink-182 superam desconfiança e se preparam para show histórico no Brasil

A espera angustiante parece estar chegando ao fim. Com mais de 30 anos de estrada, a banda americana de punk rock Blink-182 chega ao Brasil para o primeiro show no país, como atração principal do festival Lollapalooza, no Autódromo de Interlagos, em São Paulo, nesta sexta-feira (20). Na última terça-feira, três dias antes do grupo subir no palco onde devem tocar para cerca de 100 mil pessoas, centenas de fãs lotaram um bar na Rua Augusta, na região central da capital paulista, para comemorar a chegada do trio. O evento organizado pelo fã-clube Action182 em parceria com o coletivo QuartEMO contou com distribuição gratuita de camisetas temáticas e sorteio de tatuagens no Baron Rock Bar.

Com a banda já em terras sul-americanas desde a última semana — a turnê inclui passagens por Peru, Argentina, Chile e Paraguai —, o clima é de ansiedade e expectativa. Uma atmosfera bem diferente do último ano, quando a apresentação programada para o Lollapalooza de 2023 precisou ser cancelada com três semanas de antecedência por conta de uma lesão no dedo do baterista Travis Barker. O histórico conturbado, porém, mexe com o emocional dos fãs. Com uma tatuagem no braço exibindo a capa do seu álbum favorito do Blink — o self-titled, de 2003 —, o músico pernambucano Felipe de Almeida Guimarães, 32, lamentou a ausência do trio na edição passada do Lollapalooza e relembrou do “perrengue” para conseguir o reembolso. Agora, ele prefere demonstrar confiança. “Todo fã de Blink vive com medo deles não aparecerem. É a primeira vez no Brasil, na América do Sul, mas a esperança é a última que morre. Vim de longe [para ver o show], eles também. Vai ser lindo, vai acontecer. Não tem como dar errado”, revelou o profissional que saiu de Recife apenas para o show. “Estava falando com a minha namorada que espero não desmaiar”, brincou.

Apesar de possuir um público bastante diverso, a apresentação promete ter um toque adicional de emoção para quem acompanha a banda há mais tempo e já ultrapassou a marca dos 30 anos. É o caso do técnico de informática Douglas Santos da Silva, 33, que aguarda ansiosamente para ouvir o hit “Stay Together For The Kids” e desfila o estilo típico dos emos: cabelo colorido, tatuagens visíveis pelo corpo, piercing no nariz e brinco na orelha. Mesmo com um problema no joelho, Douglas prometeu batalhar por um lugar na grade do palco para ver os ídolos de perto. “Descobri há um mês que preciso fazer uma cirurgia, mas estou com ingresso desde setembro. Me planejei para isso, vou encontrar com amigos… Então a cirurgia vem depois, primeiro vem o show. Ano passado foi dolorido — vou todos os anos ao festival, mas, depois do cancelamento, fiquei tão ‘brochado’ que preferi vender o ingresso”, conta.

O evento na Rua Augusta reuniu quase 300 pessoas, incluindo algumas que não devem estar em Interlagos na sexta-feira. A gerente de marketing Taynara Santos, 29, levou dois amigos para garantir as camisetas distribuídas e revelou que o espírito de “jovem senhora” desencorajou a ida ao festival, mas diz que o evento serviu para “se lamentar”. “Nunca tive a oportunidade de ir em um show do Blink. Espero que eles venham novamente, já com essa vibe de já ter vindo e conhecido o público para voltar e fazer um show solo. Aí, sim, eu vou pirar para ir junto.”

Já o químico Mário Tanikoshi, 32, precisou rever os planos para estar em Interlagos. No último ano, ele estava morando na Irlanda, mas não conseguiu combinar a agenda com as datas da turnê europeia. Uma emergência familiar forçou o retorno ao Brasil justamente na época da apresentação, com expectativa de um gosto especial pela energia dos fãs brasileiros. “[Os fãs estrangeiros] são muito mais frios. Eles curtem o show muito mais calmos porque, para eles, é uma coisa normal ver o Blink. Todo mundo que a gente conversa aqui está muito animado, querendo fazer festa, brincar, gritar. Essa é a diferença, nós somos um povo mais quente. Como é a primeira vez que a gente vai ver, acho que vai ser muito maior, muito mais divertido”, explica. Há quase exatamente um ano, Mário esteve presente em um outro evento organizado pela Action182 no bairro de Pinheiros, que deveria ter servido de “esquenta” para o show que acabou sendo cancelado, e, coincidentemente, também foi entrevistado pela reportagem da Jovem Pan.

Alimentando a vontade de promover ações e “espalhar a palavra” do grupo californiano, está o empresário Bruno Clozel, 35, que comanda o fã-clube desde 2003 e, mesmo morando no exterior, veio ao Brasil para acompanhar o show. Desta vez, o planejamento foi mais discreto e feito em cima da hora, tendo “união” como palavra de ordem. “O evento é mais uma celebração e agradecimento ao Blink e, principalmente, aos fãs brasileiros, que aguardaram 30 anos… E à galera que não desistiu da banda. Eu sempre falei: ‘o Blink vai vir, isso vai acontecer’. Demorou um pouco, com alguns cancelamentos, mas finalmente teremos eles no Brasil”, comemora. A apresentação do grupo será a 30ª vista ao vivo por Clozel, que já esteve presente na turnê nos Estados Unidos e na Europa — agora, a expectativa é por um show ainda mais encaixado e embalado pelo público local. “Eles estão no ápice técnico, de presença e performance.”

O emo não foi só uma fase

Bruno Clozel (ao centro, de boné) e Walter Neto (à esquerda, de vermelho) distribuem camisetas e adesivos em evento do Action182 (Kon Fotografia/QuartEMO/Divulgação)

Com um pé no hardcore e outro no punk, o emo — ou emocore — surgiu nos Estados Unidos no final da década de 1990. Além do Blink-182, o estilo também ficou marcado, principalmente até a metade da primeira década dos anos 2000, por outras bandas americanas, como no caso do Green Day, Jimmy Eat World e Simple Plan — este último, do Canadá. No Brasil, o começo do século XXI foi o cenário para bandas que se apossaram do ritmo e criaram uma cena própria, ao exemplo da gaúcha Fresno e a paulista NX Zero. Na sua maioria, todos os grupos dividem algo em comum: a estética com predileção por roupas e maquiagem escuras e a temática sensível e melancólica.

Mas, apesar do início estrondoso, o movimento perdeu força. Mesmo a palavra “emo”, usada para descrever os fãs, virou motivo de chacota e passou a ser utilizada até de forma pejorativa. O cenário desolador, porém, parece ter sido contornado e fazer parte do passado. Agora, o gênero musical e o estilo de vida são motivos de orgulho. O bancário Walter Neto, 33, é um destes exemplos. A roupa formal utilizada para o trabalho pode até disfarçar, mas não se engane: trata-se de um emo “raiz”. O apresentador do Cafemo — um dos quadros semanais do coletivo QuartEMO, com notícias sobre as bandas — acredita que a cena nunca esteve tão fortalecida. “O emo nasceu para um público jovem, e o público mais velho não gostava. Hoje nós somos os mais velhos, então não temos aquele problema, e trazemos os mais novos, porque nós os apoiamos. No final de semana, estou com a unha pintada, e durante a semana sou bancário. Esta é a minha vida”, diz.

“O Blink é uma banda gigante. O momento do emo, principalmente no Brasil, é gigante. A gente provou com os últimos eventos o quão o emo é forte por aqui”, completa. Por “últimos eventos”, Walter se refere sobretudo ao I Wanna Be Tour, festival itinerante realizado no começo do mês que trouxe nomes icônicos para o país. O destaque ficou por conta do Simple Plan, mas o lineup repleto de nostalgia incluiu conjuntos como Asking Alexandria, A Day To Remember, The Used e All Time Low. Em São Paulo, o festival lotou o estádio Allianz Parque — antes de passar por Curitiba, Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro.

One More Time…

Fãs aproveitam evento para marcar na pele o amor pelo Blink, com tatuagem do logo da banda (Kon Fotografia/QuartEMO/Divulgação)

É impossível contar a história do rock nos Estados Unidos sem passar pelo Blink-182. Formado em San Diego em 1992, o trio contava originalmente com Tom Delonge (vocais e guitarra), Mark Hoppus (vocais e baixo) e Scott Raynor (bateria). Mas a formação clássica tem uma mudança: Travis Barker assumiu o posto de baterista em 1998, antes da gravação do disco “Enema Of The State”, época em que o grupo deixava a fase de besteirol e caminhava para uma era mais madura. Singles como All The Small Things, I Miss You e Dammit são reconhecidos em todos os cantos do mundo e marcaram a trilha sonora de muitos adolescentes desde seus lançamentos. A arrancada estelar para a consagração como uma das maiores bandas americanas foi interrompida por um “hiato indefinido” no começo de 2005, dois anos após a gravação do mais experimental self-titled.

Em setembro de 2008, porém, um acidente de avião com Travis Barker alterou os rumos. Apesar de ter desenvolvido medo de voar, o baterista e os outros dois membros retomaram as relações e anunciaram o retorno às atividades, marcado por uma turnê em 2009 — onde Barker viajava apenas de ônibus e navio — e o disco Neighborhoods em 2011. Na virada de 2014 para 2015, o anúncio da saída de Tom Delonge surpreendeu os fãs, que acreditaram que a nova ruptura seria o fim definitivo do blink. Fundador do Alkaline Trio, Matt Skiba foi chamado para integrar o grupo como guitarrista e vocalista. Com ele, outros dois discos foram lançados: California (2016) e Nine (2019).

Mas os rumos foram alterados novamente. Em julho de 2021, Mark Hoppus divulgou uma mensagem confirmando o diagnóstico de um câncer considerado raro pelos médicos. A doença fez a formação clássica retomar contato mais uma vez e discutir a possibilidade de um retorno, o que acabou sendo confirmado em 2022. O décimo disco da banda, “One More Time”, veio em 2023, marcando a retomada dos trabalhos com Delonge. O single homônimo é um exemplo do amadurecimento musical e das relações entre os integrantes. Casado com a socialite Kourtney Kardashian, Travis Barker também publicou pelas redes sociais que, 14 anos após o acidente que deixou quatro vítimas fatais, havia finalmente perdido o medo de voar — a notícia reacendeu a esperança dos fãs brasileiros para uma tão aguardada turnê pelo país.

Mais afiado do que nunca, o Blink-182 chega ao Brasil com um repertório que cobre praticamente toda a carreira. Mesmo o single “Bored to Death”, feito com Matt Skiba, foi contemplado no setlist — que acabou ignorando o clássico “Caroussel”, de 1995, para protesto de quem acompanha o grupo há mais tempo. A expectativa é de que o show tenha duração de aproximadamente 90 minutos e conte com 26 músicas, com as recém-lançadas “MORE THAN YOU KNOW” e “DANCE WITH ME” e outras mais antigas, como “What’s My Age Again?” e “The Rock Show”. Para 2025, a expectativa é de um retorno com a turnê do novo álbum, que já possui datas marcadas para os Estados Unidos.

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