Cercado por investigações, Bolsonaro tenta acordo com STF

Tentativa de aproximação vem após fortes críticas a ministros da Corte

A prisão do ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) acendeu mais um sinal de alerta no Palácio do Planalto. Além do suposto envolvimento do filho com o esquema de rachadinha, o presidente Jair Bolsonaro, além de enfrentar ações que podem cassar a sua chapa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), vê apoiadores diretos do governo investigados no inquérito das fake news.

A relação ruim com Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara dos Deputados, que poderia levar à abertura do processo de impeachment, foi parcialmente superada com a destinação de cargos a indicados de parlamentares do chamado Centrão. Por ora, com a adesão do bloco de partidos ao governo, o afastamento é improvável.

“Hoje, é uma realidade, nós não temos um número possível na Câmara para que esse pedido [de impeachment] seja aceito”, admitiu o senador Randolfe Rodrigues (Rede-RR) em entrevista exclusiva à CartaCapital.

Se na política o presidente ganhou um fôlego, na Justiça os obstáculos para a continuidade do seu mandato se avolumam.

Neste cenário, Bolsonaro anunciou a saída de Abraham Weintraub do Ministério da Educação. Em reunião ministerial no dia 22 de abril, o futuro ex-ministro chamou os integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF) de “vagabundos”. Weintraub, agora, deve assumir um cargo no Banco Mundial. A demissão foi vista como uma tentativa de paz de Bolsonaro com o STF.

“Deve ser a primeira vez na história do país que o STF pede a cabeça de um ministro (sem cabeça), e o presidente tem que se dobrar à Corte. Bolsonaro está tão nas mãos do STF, que não pode se recusar a nada”, analisou o cientista político Alberto Carlos Almeida, em seu Twitter.

Na última sexta-feira 19, os ministros Jorge Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), André Mendonça (Justiça e Segurança Pública) e José Levi Mello do Amaral Júnior (Advocacia-Geral da União) se reuniram com Alexandre de Moraes, do STF, em São Paulo. De acordo com a TV Globo, o encontro faz parte da estratégia do Palácio do Planalto para construir um canal de diálogo do presidente com o Supremo.

Moraes é o relator de dois inquéritos que investigam aliados de Bolsonaro no STF.  Um deles é o das fake news, que apura ameaças, ofensas e calúnias contra integrantes da Corte. A investigação mira o chamado “gabinete do ódio”, grupo de assessores da Presidência supostamente comandado pelo vereador Carlos Bolsonaro (Republicanos-RJ).

“Eu não vou ser o primeiro a chutar o pau da barraca. Eles (ministros do STF) estão abusando. Isso está a olhos vistos. O ocorrido no dia de ontem, quebrando sigilo de parlamentares, não tem história nenhuma vista em uma democracia por mais frágil que ela seja. Está chegando a hora de tudo ser colocado no devido lugar”, chegou a declarar o presidente nesta semana, antes da tentativa de aproximação

Outro alvo do Planalto para conversa é Luiz Fux, que será o próximo presidente do STF. De acordo com a Folha de S.Paulo, o movimento de aproximação tem como principais interlocutores o ministro Fernando Azevedo (Defesa) e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP). A tentativa de proximidade vem após fortes críticas do presidente a Fux.

“Não existe intervenção militar. O artigo 142 (da Constituição), nem precisava o senhor Luiz Fux monocraticamente atender a um pedido do PDT, um partido que tem ligação com o partido comunista chinês, para dizer qual o papel das Forças Armadas. Como se o nosso Alto Comando das Forças Armadas fosse (formado por) pessoas que não soubessem qual o seu papel em uma democracia. E nós, militares das Forças Armadas, porque eu também sou militar, somos os verdadeiros responsáveis pela democracia nesse país. Nós jamais cumpriríamos ordens absurdas, mas nós também jamais aceitaríamos um julgamento político para destituir um presidente democraticamente eleito”, declarou.

Antes da prisão de Queiroz, Bolsonaro também crticou o TSE. Na Corte, há oito ações que tentam anular a eleição presidencial, das quais quatro tratam do suposto uso de notícias falsas (fake news) pela campanha do presidente.

O tribunal, no momento, julga se houve abuso eleitoral na mudança de nome de uma página no Facebook que reunia 2,7 milhões de pessoas e era chamada de “Mulheres Unidas contra Bolsonaro”. Após uma invasão feita por hackers, o nome foi alterado para “Mulheres com Bolsonaro #17”.  O julgamento foi suspenso depois de um pedido de vista do ministro Alexandre de Moraes.

“Não queremos fazer nada de ilegal, ao arrepio da lei, mas também não admitiremos julgamento político. Aí não. Isso é afronta? Não é afronta, é uma realidade. Ser acusado disso? Um hacker mudou a página em setembro de 2018. Mudou o resultado das eleições… (em tom irônico) Gastei R$ 2 milhões na campanha, vocês (apoiadores) doaram. É até vergonhoso falar que um tribunal superior está julgando uma ação como essa”, afirmou Bolsonaro.

O momento de fragilidade do governo também foi observado nas redes sociais. De acordo com Pedro Barciela, especialista em monitoramento, os apoiadores do presidente o começam a ver como “frouxo”.

“Basicamente os bolsonaristas não se mobilizaram hoje [dia da prisão do Queiroz] como de costume. Uma hipótese é a falta de uma linha argumentativa central e de ordens bolsonaristas. Porém, outra hipótese que circula é: parte do bolsonarismo começa a encarar Bolsonaro como ‘frouxo’”, concluiu.

Fonte: cartacapital.com.br

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