Afropatys e afromauricinhos querem criar referências de luxo para negros

Tendência mistura elementos da cultura negra, peças populares e roupas de grife; uso do termo gera debate

SÃO PAULO Desde a infância, Mari Lobo, 26, já gostava de misturar cores e estampas e fazer combinações com o que tinha no armário. Mas, ao crescer, teve dificuldade em encontrar outras mulheres pretas e gordas bem vestidas.

“Quando pesquisava algum look aparecia uma enxurrada de mulheres brancas e magras. Me inspirei muito durante muito tempo em pessoas que não me representam”, diz. Hoje ela é modelo e criadora de conteúdo, como forma de tentar servir de referência para novas gerações.

Lobo é uma representante de uma nova tendência conhecida como afropatys e afromauricinhos —homens e mulheres negros que usam a moda para expressar sua ancestralidade.

O assunto gera debate por partir de uma ideia vista como pejorativa e branca. Mas, quem se diz preta patrícia —variação para o termo— quer mostrar que está ocupando lugares de conforto e romper com estigmas que cercam a população negra.

Para a influenciadora Josy Ramos, ser uma afropaty é motivo de orgulho. “São mulheres negras que entendem que podem e devem ocupar o lugar que quiserem. Inclusive, podemos ser um pouco fúteis. Não somos obrigadas a ser guerreiras o tempo todo”, afirma ela, que intitula-se dessa forma desde 2018.

“Esses termos são uma brincadeira da gente, não queremos ocupar o lugar da paty branca, até porque a nossa vivência é outra e a gente sabe disso.”

No Brasil, mulheres negras ainda ganham menos da metade que homens brancos, segundo estudo da economista Janaína Feijó, da FGV.

A busca não deve ser para reproduzir a ideia de patricinha dentro dos moldes brancos, diz Carol Barreto, artista visual, designer de moda, e pesquisadora. Segundo ela, a construção do status e da ascensão social das pessoas negras não deveria estar direcionada a uma imitação da branquitude.

Ainda que pessoas negras usem esses termos para ressignificá-los, a pesquisadora diz que é preciso ter uma compreensão crítica.

Autor do blog O Cara Fashion, Fabiano Gomes, 36, diz que muitas vezes é visto como afromauricinho pelo público, mas não costuma adotar a expressão. “O termo carrega o estigma de uma pessoa cercada de privilégios, coisa que a gente está longe de ser”, diz.

Fabiano criou seu site em 2012, devido à falta de referências que o representassem. “Os blogs de moda masculina eram muito restritos ao padrão hétero, branco e cisgênero.”

Ele afirma ter tentado se encaixar no que via ao navegar pela internet. Mas, aos poucos, percebeu que aquilo não lhe cabia. Hoje, diz usar a moda como uma armadura. “Me preparo para o momento que vou sair de casa, me visto, me monto e me sinto confiante.”

Sentimento compartilhado pelo criador de conteúdo Bruno Gomes, 26. Para ele, o movimento que nasceu nas redes sociais não é apenas para ostentação, mas mostra que pessoas negras podem transitar por lugares de conforto.

Retrado de Bruno Gomes, criador de conteúdo e produtor de moda – Danilo Verpa/Folhapress

Produtor de moda e fotógrafo, diz que sempre viu poucos homens negros nas revistas e passarelas. Por isso, diz ter crescido se inspirando nas mulheres pretas. “Não existia a mínima possibilidade de ter um cara parecido comigo”, afirma.

Criar formas de autoafirmação, novos ídolos e referências sobre os lugares de conforto é um dos objetivos da juventude negra, afirma a comunicadora e pesquisadora de moda e comportamento Luiza Brasil.

Ela considera que a relação das pessoas negras com a moda deve ir além da questão estética, refletindo também a identidade e a herança que vem do continente africano.

Cita como exemplo tribos da África que usavam vestimentas e outros elementos visuais para definir o status social da pessoa. “Com a diáspora forçada para o Brasil, tudo isso é retirado, mas alguns elementos influenciam religiões de matriz africana e ainda fazem parte do repertório da nossa cultura“, diz Luiza.

A pesquisadora destaca também o papel da música nesse tema. Cantores negros como Tony Tornado e Wilson Simonal, por exemplo, abriram espaço para um estilo que exalta a negritude, segundo ela.

LEIA TAMBÉM

Deixe um Comentário