Afinal, quem pode morrer para salvar a economia?

É hora da cooperação global entre países – compartilhando aprendizados, materiais, medicamentos, médicos, e apoio financeiro

Enquanto o isolamento social se mantém como a principal forma de conter a proliferação da Covid-19 – o que vem acarretando no fechamento de fábricas, comércios e empresas – no mundo todo aumenta a polarização entre aqueles preocupados em salvar a economia e os preocupados com a saúde das pessoas e do planeta.
Os impactos já são sentidos na economia. E empresários se dividem entre o desejo de liberar os funcionários para garantir a saúde de todos e a angústia de ver seus negócios entrando em coma sem previsão de retorno, e com isso não ter dinheiro para pagar seus funcionários.
Para alguns, a taxa de letalidade – estimada em 1% mais ou menos (média no mundo sem levar em consideração as particularidades de cada país) – é baixa diante do caos econômico. Por conta das paralisações, certamente o número de desempregados e pessoas que terão a vida financeira desestruturada será infinitamente maior do que os irão se contagiar ou mesmo morrer.
Estudos levantaram a previsão de 26 milhões de infectados no mundo até o final de abril. As mortes, como disse anteriormente, variam de acordo com a realidade de cada país – que tem a ver com renda e idade média da população, basicamente (vou falar mais a diante). E por aí vemos: de um lado, pessoas preocupadas em salvar vidas, clamando para que todos fiquem em casa. Por outro lado, há aqueles preocupados em salvar a economia.
A notícia da morte de um funcionário do FMI de 26 anos, que era contra a quarentena, pode ter balançado um pouco aqueles que estavam com opiniões formadas. Rehman Shukr atuava como especialista em sistemas financeiros e em seu último post no Facebook defendeu que era uma má ideia sobrepor o que chamou de “aspecto humano” da doença aos impactos na economia.
O que há de mais importância neste momento? A resposta não é simples. Ao mesmo tempo em que precisamos agir de forma rápida e eficaz, o alerta do vírus é que não podemos fazer escolhas com a cabeça de antes. As decisões que tomarmos hoje irão determinar o futuro da humanidade (inclusive se haverá futuro).
Bem, primeiro, acho importante lembrar que estamos falando de vidas – independentemente de quantas e de quem são. Ainda é preciso lembrar que o sistema capitalista-selvagem-patriarcal no qual estamos inseridos faz vítimas todos os dias – há muito tempo. As principais causas são a desigualdade social, o desequilíbrio na distribuição de renda, mas também o preconceito, a marginalização, a falta de cuidado com aqueles tidos como “minorias”.
Sem contar com os que já sofrem com alterações climáticas devido ao colapso do ecossistema que a ação humana vem promovendo. O que o vírus fez foi confirmar a fragilidade do sistema e das nossas relações e dividir aqueles com aspirações individuais dos que tem aspirações coletivas. Mas será que a luta pela economia é diferente da luta pelas pessoas?
A nova noção que começa a se estabelecer é de que é impossível descolar uma coisa da outra. Antes aqueles que estavam em situações mais vulneráveis se prejudicavam sozinhos. Viviam infelizes, com restrições, morriam, mas não mudavam em nada a vida daqueles com privilégios e papeis sociais elevados (saúde, dinheiro, emprego e estabilidade).
É preciso lidar com o fato de que os menos favorecidos não tem condições de fazer compras para estocar, guardar. Em muitas comunidades eles sequer tem água para lavar a mão. É impossível ficar a 1 metro de distância dos outros em pequenos cômodos superlotados. Falar em álcool gel é quase piada. As comunidades são como barris de pólvora para o vírus e podem colocar por água abaixo todos os esforços de contenção, caso ele se espalhe por lá. Isso é um problema econômico ou social?

O coronavírus é um alerta de que não dá mais para viver sem uma noção sistêmica nas relações. Enquanto o nosso sistema continuar oprimindo e excluindo, enquanto o nosso sistema econômico não for a favor das pessoas, das empresas e do planeta, continuaremos tendo vítimas. Por isso, voltar ao que era não tem sentido, não vai funcionar. A escolha de “salvar a economia” não pode mais ter a ver com passar por cima das pessoas. Isso é o que tem sido feito até hoje.

Suspender a quarentena não é garantia de salvar a economia. Quem acredita que as pessoas vão voltar para rua e sair gastando como se nada tivesse acontecido? Muitas vão continuar com medo. E outras estão mais conscientes sobre o que há por trás da pandemia. E o que acontece se pais, mães, avôs e avós de família morrerem? Ali na frente tudo isso pode contribuir com uma nova crise se a raiz de tudo não mudar.

A quarentena é uma forma de socorro às pessoas. Da mesma forma como perderemos vidas, durante o processo (por se tratar de uma doença), qualquer alternativa terá um custo econômico. E cadê o socorro à economia? Quem está pensando em como criar uma nova lógica de funcionamento? Em distribuir melhor renda?

O momento nos oferece a oportunidade de se valer do sentimento de que estamos todos no mesmo barco para colocar em prática de uma vez por todas, a nossa capacidade de colaborar além fronteiras, de sistemas de crenças ou blocos políticos.

É hora da cooperação global entre países – compartilhando aprendizados, materiais, medicamentos, médicos, e apoio financeiro. Cooperação entre classes, compartilhando saberes, fazeres, renda, comida… É hora de criarmos uma economia regenerativa e colaborativa. Mas antes é preciso aceitar que o sistema capitalista vigente já não funcionava para todos. Esta discussão é a maior prova disso.

Fonte: cartacapital.com.br

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