A exposição de Vinicius Junior e a comercialização do racismo

Das boas atuações em campo à primeira mulher chefe de delegação, qual o saldo dos dois amistosos na Europa

Foi importante o Brasil ter enfrentado equipes europeias em amistosos. A seleção brasileira não deveria ter jogado na Espanha.

Ver a seleção ao vivo é um privilégio, e essa honra foi dada ao público que hostiliza sistematicamente o maior jogador brasileiro em atividade.

A imagem de Vinicius Junior sozinho na entrevista coletiva na véspera da partida contra a Espanha é incômoda. Ficou exposto, colocado no centro das atenções de uma luta que não deveria ser só dele. O mundo ouviu com tristeza quando ele disse, chorando, que cada vez tem menos vontade de jogar futebol. Isso aos 23 anos e atuando no maior clube do mundo. Mas, com tudo o que sofre, alguém se surpreende?

O amistoso tinha como mote o combate ao racismo, mas e na prática?

Carvajal, lateral da Espanha e do Real Madrid, poderia ter tido empatia pelo companheiro de equipe –já que presencia os insultos a Vinicius Junior–, mas preferiu ser reativo em uma entrevista. Afirmou que os espanhóis não são racistas –generalização que é errada mesmo, mas não era sobre isso– e usou o velho discurso de “tenho amigos de cor de pele diferentes” e disse que “existem os casos de quem entra nos estádios para desabafar”. Desabafar cometendo crime?

Já Laporte, também parte de uma seleção espanhola que deveria estar unida contra o racismo –no mínimo, naquele jogo– fez um tuíte debochando do brasileiro.

Houve quem tenha destilado raiva nos principais jornais da Espanha –na minha opinião, não é jornalismo por não prezar pela informação correta. No dia seguinte ao amistoso, um repórter escreveu no Marca que Vinicius Junior “se mete em confusão, provoca”, e “ser vítima não o autoriza, nem como mecanismo de defesa, a ter um comportamento arrogante, provocador”. No El País, um artigo dizia que ele cria “armadilhas contra sua própria personalidade”.

Para a reportagem da Folha, feita do Santiago Bernabéu, um adolescente espanhol explicou por que seus amigos não gostam do brasileiro. “Dizem que ele não precisa fazer dancinha ensaiada, que isso irrita muito. Não sei se têm razão, mas eu entendo um pouco essa raiva.”

Vinicius incomoda os racistas porque não se cala, porque se posiciona. E ainda tem que aturar fiscal de comemoração.

Ao mesmo tempo, há o que ser celebrado depois das partidas contra a Inglaterra, aqui em Londres, e contra a Espanha. A presidente do Palmeiras, Leila Pereira, como chefe de delegação, mostrou como é importante ter mulheres em posições de liderança no futebol. Um bom início de trabalho de um novo treinador, a paixão dos jogadores em defender a camisa da seleção, o talento de Endrick, que, em um espaço de três dias, fez gols em Wembley e no Santiago Bernabéu, futura casa. Em breve, o jovem de 17 anos estará a caminho do Real Madrid.

Vitória sobre a Inglaterra por 1 a 0 e empate por 3 a 3 com a Espanha, mas dá até para pensar que deveriam ter sido duas vitórias. Já que a partida em Madri não teve árbitro de vídeo e os dois pênaltis contra a seleção brasileira foram para lá de controversos, poderia ter sido 3 a 1 para o Brasil. Para os críticos do VAR, prova de que só damos valor para algumas coisas quando não as temos.

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